De todas as penitências que podem existir nada é mais cruel para o homem do que perder um sentido. Nunca ter sido contemplado por ele é suficientemente pesaroso, mas perdê-lo é arrasador.
Perder um sentido é tão cruel quanto ter sido criança. A todo tempo, pelo resto de nossa existência, nos lembraremos dos doces anos que a vida já não traz mais. Anos de leveza, inocência, sinceridade, confiança e amor infinitos, tão intensos e reais que não cabem em um mundo crescido.
E como um cego que nasceu são, nos tornamos adultos que nasceram crianças, atores que se perderam encenando um personagem na imensidão cruel de um palco onde só os mais fortes sobrevivem.
Se a visão um dia nos faltar, os outros sentidos, combinam entre sí e, cada um no que lhe cabe, dedicam-se mais para que o palco não escureça totalmente. Se a infância se vai a implacáveis golpes de maturidade em direção a uma vida adulta, o amor aparece para nos lembrar de quem somos e planta inocência, carinho, leveza e confiança. Mas os brotos só nascem em solo fértil e bem cuidado, em terra fofa e bem nutrida, onde há, principalmente, vida.
O tempo nunca volta, mas o começo é feito tantas vezes quantas conseguirmos nos levantar. Sempre haverá um sinal para aquele que está atento. Sempre haverá um amor para aquele que se permite, sempre haverá para mim você.