segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sete Bilhões de vezes mais fortes


Não existe nenhum mapa com a direção que devemos tomar, nem relógio que marca o tempo que  falta ou resta.

Só quando rasgamos os mapas e jogamos os relógios pela janela é que descobrimos quem somos. Só quando não temos nenhuma outra opção além de ser fortes é que descobrimos o quanto somos. Só quando nos entregamos a nós mesmos, a nossos instintos, erros e acertos deixamos nossas marcas pelo caminho da humanidade.

 É preciso coragem para sair do medo quando ele está em tudo o que nos fizeram acreditar. É preciso coração para continuar sorrindo, preciso Deus para continuar acreditando. É preciso muita lucidez para ser louco.

O nosso mundo cresce cada vez mais, hoje chega a 7 bilhões de pessoas. Alguns acham que ele está superlotado, eu acredito que somos 7 bilhões de vezes mais fortes, acredito que um dia nossos objetivos vão ser um só, que não deixaremos ninguém para trás e que vamos respeitar a natureza de onde viemos e que faz parte de quem somos.

Só quando o observador e o observado não tiverem mais nenhuma diferença entre sí é que estaremos todos juntos contra os fantasmas que tomaram conta do nosso mundo e se escondem em cada um como egoísmo, medo, precaução, desconfiança, ganância, arrogância e ódio.

Jogar fora o mapa e o relógio, deixar o coração e a lucidez serem os guias e Deus iluminar o caminho é descobrir a força que vem da doce entrega a sí mesmo.

É fácil ser você mesmo se é nisso que acredita, é fácil te amar sabendo que de você vem tanto do que sou.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Bailarina


Descobri uma bailarina bela e graciosa, nunca caia
Enchia todo canto como o canto do pássaro faz com o dia

Descobri uma bailarina por entre as sombras 
Pernas delgadas e ligeiras saltando em pontas

Descobri uma bailarina, simetria da perfeita poesia
Toda ela suavidade de pura leveza e harmonia

Descobri uma bailarina, pequena e linda Colombina
Desejei ser Arlequim, para te-la minha menina 

Descobri uma bailarina, maestoso marcado andante
E segui seu andamento em crescendo molto cantante

Descobri uma bailarina, em movimento é plenitude
Se parada desaba em solidão e cai em quietude

Descobri uma bailarina, linda
Era ela eterna menina.

Descobri uma bailarina
Dançarina da vida.

sábado, 15 de outubro de 2011

O Viajante no caminho


Essa é a história de um menino que só existe na cabeça do meu mundo, mas pode existir no seu se acreditar. 


Da grande estrada ao longe
Veio em sua direção um viajante
De andar tranquilo e elegante
Sorriso largo, olhar penetrante
Seu caminho vinha de onde?
Tanta bagagem não esconde

Talvez reflexo de vitral
Talvez qualquer um vertical
Não dizia alguma diferença
Ou via nele sinal sepulcral
Faltava sexo cor e crença
Nesse viajante sem igual

Seu sorriso era máscara
Mas não por isso uma farsa
Ele dizia que assim que estava
Explicou a bagagem amarrada
Todas as máscaras guardadas
Cada uma era parte de estada

Uma canção virginal era entoada
Para a Bennu nele montada
Ela dizia da estrada estreitada
E de como tudo o que restava
Tinha sido a bagagem apertada
E a verdade ali empoleirada

E continuou o seu destino
Dividimos uma parte do caminho
Agora ja era dia amanhecido
A estrada não seria desatino
O viajante sob o Sol a pino
Era andante já sumido.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Como o céu nublado.

Quando o céu está nublado, com nuvens, sem chuva, sem frio nem calor tudo adquire cores diferentes, todas as possibilidades se tornam mais reais e próximas, a chuva, o vento, o mormaço, um final de tarde fresco com o Sol se pondo enquanto uma brisa leve acaricia todos que se aventuram ao ar livre, uma noite limpa que nos lembra do nosso tamanho real e da nossa beleza única e especial, como toda estrela.

Tudo isso ao mesmo tempo ou nada, pode ser que nada aconteça, ele simplesmente é, é incerto nele mesmo, ele é a confusão na sua incerteza e em todas as suas possibilidades e tem uma beleza menos admirada, mas talvez seja a maior e mais sutil de todas as belezas que o céu possa ter, porque é breve, o céu nunca permanece nublado por mais de um dia e uma noite completos.
O céu nublado é incerto, possível, impossível e belo porque é passageiro.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Lagarta empertigada

Da série o menino que imaginava.
Essa é a história de um menino que só existe na cabeça do meu mundo, mas pode existir no seu se acreditar.


Tem uma lagarta empertigada lá em cima do cogumelo.
Ela diz que o mundo é belo.
Que conta a gente que contra a gente
Só há o que tem dentro da mente


Que sobe até lá para nunca deixar de lembrar
Que não vive sem coração
Seja a vida curta ou de longa duração.
Tudo depende de admiração.
Não há nada que precise de perdão.


Uma lagarta empertigada 
lá no alto sem escada
Ela diz que ali a sua mente
Vive sempre no presente
Que não se preocupa com o dia ausente
Porque o que vai vir ela ainda não sente
Não importa quais sonhos acalente
No caminho tem sempre um acidente
Ela disse que só assim a gente aprende


Essa lagarta se acha gente
Ela quer ser como a gente
Mas que empertigada essa lagarta.





A insignificância de cada um


Cada um de nós é completamente insignificante. Cada desejo que você tem é insignificante, cada sonho que te move, cada decepção que abala toda a sua vida, cada angústia que te desespera mortalmente, cada vitória e cada perda, por maior que seja, é completamente insignificante. Não pretendo fazer um ode ao desânimo, mas sim gritar a plenos pulmões como um galo empertigado num poleiro, nem que isso só sirva para acordar o vizinho.*
Você é a merda do mundo que faz tudo para chamar a atenção
Você é a merda do mundo que faz tudo para chamar a atenção
Sou um entre sete bilhões de pessoas, apenas uma espécie entre milhares de outras, dentro de um continente, num planeta, num sistema solar, numa galáxia entre uma real infinidade de outras.

Caso fosse possível unir em um lugar, exatamente a mesma quantidade de pessoas do que a de um objeto qualquer, como por exemplo, grãos de milho. Imagine então leitor, entre sete bilhões de grãos de milho amarelos um que seja vermelho, seria possível vê-lo? Os mais céticos diriam que sim caso ele estivesse em algum lugar significativo, POR CIMA DOS OUTROS, POR EXEMPLO. Imaginemos então, segundo o mais cético, que fosse possível ver o grão que é vermelho, agora, vendo ele responda. Qual seria a diferença que ele faria? Mesmo que destacando-se enormemente dos outros, qual a diferença que aquele grão vermelho, sozinho, tem?
Consegue se enxergar agora?
Consegue se enxergar agora?

Como raça acreditamos ser superiores a toda outra forma de vida. Somos especiais, apenas por pertencer a esta espécie que tem grande capacidade de aprendizado e adaptação, possui criatividade, auto-reflexão e um polegar opositor. São características inegavelmente úteis. Quanto a isso é dever perguntar, o que fizemos com tudo isso? Onde chegamos? Nossa contribuição, como seres “mais evoluídos” aos “menos evoluídos” e para o lugar em que existimos é responsável?
Como vai sua responsabilidade por ser mais adaptado ?
Como vai sua responsabilidade por ser mais adaptado ?

Nos esquecemos da nossa insignificância, o que é totalmente compreensível uma vez que vivemos o tempo todo incentivados pelo sonho de ser especial, pela vontade de se destacar, de ser mais, de alcançar uma posição de destaque, frente aos outros e no meio em que vivemos e os de nós que não estão sujeitos a essa “força” são tão miseráveis que só o que importa é sobreviver. No final, a nossa melhor virtude decorre de uma miséria supérflua e evitável* ou não somos os causadores de toda a miséria? Somos homens buscando a sobrevivência, o abrigo e a evolução? Não! Então o que somos? Somos consumidores*. É certo que algumas pessoas possuem objetivos que fogem à regra, mas afinal, qual a diferença de alguns milhos vermelhos?

Todos nós somos manipulados em algum nível, porque nascemos e crescemos metralhados por verdades, opiniões, imperativos e conceitos extremamente bem trabalhados para que nos atinjam o mais profunda e imperceptivelmente possível. Se tanto o passado como o mundo externo só existem na mente e a mente em si é controlável…então?*

Os poucos leitores que chegaram a essa altura do texto podem estar se perguntando. Se abolir todos os meus sonhos, se sou completamente insignificante, se nada do que eu faço, sinto ou sofro faz a menor diferença, então para que continuar?

É necessário que tenhamos consciência de que somos completamente insignificantes, mas constantemente pensamos o contrário, seja frente ao universo, frente a outras espécies ou frente a nosso semelhante. É vital compreender que nossa vida não significa absolutamente nada, que é completamente dispensável e sem importância. Para que? Para que possamos entender que não é um milho que faz a diferença, mas todos eles como um.

O seu sonho não faz diferença. Quando percebermos fundamentalmente que nossas vontades são irrelevantes, poderemos nos deixar guiar. Quando acreditarmos que não somos especiais e que nossos sonhos não significam nada poderemos entender do que fazemos parte por deixar de olhar só para nós mesmos e se permitir fazer parte de algo. Quando entendermos que se nossas frustrações forem irrelevantes para nós elas simplesmente deixarão de existir, então viveremos como um, então, a crise irá por água abaixo, então o sofrimento terá fim. Quando percebermos que um rio flui por nós e que não somos o rio, nem a água, então encontraremos o que procuramos de forma definitiva e não passageira. De fato há na eternidade algo verdadeiro e sublime, porém todos esses tempos, lugares e ocasiões estão aqui e agora.*

O que busco é um despertar guiado pela razão, que pode nos levar a uma gama de despertares muito mais ampla. O que pretendi, incauto leitor, não foi atingir sua vida, mas o teu âmago, o que busco não é politico, não é econômico, não é religioso, nem social, o que busco é a tua consciência, pois essa é a verdadeira crise que nos atinge hoje em dia, acima de todas as outras. Vamos aceitar que querendo ou não estamos sendo levados e vamos viver com esse que é o maior prazer, mais forte tesão, porque nada do que pensamos ou amamos faz diferença então vamos nos deixar levar a ser parte de algo e não o contrário.

Por fim peço que não acredite em mim, pois estamos juntos examinando, avaliando, contestando, nunca aceitando o que nos falam, nunca. Estamos juntos caminhando na mesma rua. Duvide, questione não aceite nada de ninguém. Podemos fazer isso juntos, não seguindo alguém, que invariavelmente tem seus próprios interesses. Não aceite Deus, o orador não é Deus, então não o aceite, o encontre.*
A luz que ofusca nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais um dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina.

Mas por favor, não concordem comigo!

*Todas as frases com asterisco não são minhas, porque tudo o que penso sozinho é completamente insignificante.

Vinte e poucos anos no século XXI


São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, o tempo não para - como diz o grande poeta - nem parece perdoar. Enquanto isso o mundo gira, numa velocidade vertiginosamente assustadora. Tanto que para se manter em pé temos que nos segurar em um apoio que nos ajuda a descansar entre uma prova e outra. Para um dia chegar lá, naquele lugar que poucos sabem como é, mas parece ser tão incrível que absolutamente todos querem ir.

Assim fazemos sacrifícios diários, onde perdemos e ganhamos pessoas, momentos e coisas, não ganhamos totalmente o que queremos e o sacrifício que fazemos é sempre titânico, mas corremos…
Corremos todos ao mesmo tempo, juntos para o mesmo objetivo, chegar . Corremos de olhos vendados, cegos, nos julgando os grandes visionários. Queremos chegar ao mesmo lugar, mas somos incapazes de olhar para o lado, por isso nos trombamos, batemos, machucamos, nos matamos e destruímos tudo a nossa volta.

Em tudo isso o que é mais paradoxal é o fato de nos apoiarmos uns nos outros, filhos nas mães, maridos nas mulheres, esposas em seus companheiros, amigos e amigas, irmãos. Usamos de apoio os que correm próximos de nós - lembrem-se corremos para chegar lá -  e consequentemente trombamos, batemos e machucamos com mais frequência as mesmas pessoas. Nesse desvario incessante dos homens, somos um exemplar genuíno à deriva do que pode vir a acontecer.

Tão cegos que alguns se perdem do objetivo de chegar lá e simplesmente correm, não por correr, não por não parar, não por sentir, querer ou aproveitar a estrada. Alguns simplesmente correm, cegos, esquecendo-se de tudo e mecanicamente acordam, vivem e dormem, esquecidos num canto qualquer de si mesmos, esquecem-se que vêm, esquecem-se do que vem, esquecem-se de quem vem. Mergulham num profundo e escuro oceano, de águas eternamente paradas e incomodamente frias onde ficam submersos na maior escuridão que existe.

Mas - sempre tem um “mas” - ainda há ela, que nunca acaba a corrida e motiva qualquer um que já ouviu seu nome, eterna corredora visionária, insiste em se apresentar depois de todos, da maneira mais singela possível, como um abraço, como um sorriso, como uma doação e vive em qualquer boa ação. Guerreira invencível em campos de batalha, ja foi a unica comida de muitos, a unica arma dos melhores soldados, a única companheira de mães que tem seu maior bem desaparecido, já levou a humanidade a feitos inacreditáveis e já te fez levantar bem de manhã depois da pior das noites. Esperança.

Com ela digo, apaga a cegueira, desamarra a venda, olha para fora de sí, olha o caos em que corremos, olha também que mais alguns enxergam, olha que pode andar vendo e chegar antes de quem corre vendado, olha que é dono das pernas que correm, dos olhos que vêm, do coração que sente, dos lábios que rogam.

Olha para realmente saber onde quer ir e mais, por onde quer ir. Aproveita quando vê, que vê e o que vê.

Desvende-se nesse século maluco.

Sobre Homens


“Nós somos uma geração de homens criados por mulheres. Será que outra mulher é realmente a resposta que precisamos?” - Tyler Durden. em Clube da luta.

A nossa geração foi criada, educada civil e religiosamente por mulheres. Tomo por nossa, toda a geração de homens que veio depois da revolução industrial e deu origem a homens fracos emocionalmente, carentes e com uma ótica perturbada sobre as mulheres e muitos outros valores.

Nós nascemos em uma época em que o Homem foi obrigado a sair de casa por oito, dez, doze horas para sustentar sua família, enquanto isso, o lar que era até então um santuário da família ficou totalmente entregue às mulheres.

O ideal que todo mundo comprou
O ideal que todo mundo comprou

O homem de outrora, rei do lar, homem de sua mulher, artesão heroico, teve que deixar sua família para ter um emprego. Os homens já não tinham mais um ofício, não exerciam uma função complexa, repleta de detalhes e manhas que eram passadas secretamente de geração em geração, isso acabou e deu lugar a produção em massa.

Perdemos muito mais do que o prazer por nossas profissões. Sim, por mais que você “ame” o que faz, faz com a condição de que te paguem e se te pagam essa é uma forma de dizer “sei que estar aqui não é o que você mais quer, mas toma essa grana pra você pagar suas contas e quem sabe comprar uma coisa ou outra enquanto vende sua vida pra mim.” Lá dentro, caro leitor(a) você sabe que isso é verdade e não preciso me justificar. Afinal são raros os escritores, os escultores, os marceneiros, os músicos ou qualquer outro tipo de “artesão” que nunca tenha sucumbido por dinheiro. Que banda sobrevive só de fazer o som que gosta? Que escritor só escreve aquilo que deixa ele com tesão? Que marceneiro só se empenha em fazer a cadeira que ele acha linda, que pintor não é pressionado por prazos? Sinto muito, mas isso não existe. Você, eu e praticamente todos que conhecemos não passam de putinhas, muitas vezes baratas ainda por cima. Por isso chega de culpar essas moças que vendem o corpo, não estamos assim tão longe delas.

Nós perdemos os nossos Homens. Eles foram criados por mulheres, por mães e avós, no refúgio feminino do sujo mundo político-indústrial dos homens. Nos esforçamos e insistimos tanto nesse ideal romântico sem sentido que, após as mulheres começarem a ter voz ativa e o divórcio não ser mais considerado crime, ele explodiu, assim como os lares “monoparentais” nos quais, em sua gigante maioria, o único parente presente é a mãe.
Fomos educados pelas “tias” da escola, que com o passar do tempo ultrapassaram numericamente, o “mestre” que hoje, no nosso ensino fundamental (aquele que forma fundamentalmente) é cada vez mais raro.

As mulheres ensinaram a nós até a religião. É um fato histórico que mulheres sempre foram mais afeitas a religiosidade do que os homens. Bom, vejamos Jesus (uma vez que somos uma nação Católica). Ele era um marceneiro, do oriente médio, que resistiu bravamente aos líderes religiosos e políticos da época, assim como à castigos físicos brutais. O Homem foi blasfemado, crucificado, espancado, chicoteado, condenado e mesmo assim manteve, o tempo todo, a dignidade intacta. A imagem que temos hoje dele é de um ser delicado, belo, penteado, de mãos lisas, roupas limpas e carinha de dó.

Esse parece ser o cara que afrontou o mundo e depois foi chicoteado e crucificado ?

Esse parece ser o cara que afrontou o mundo e depois foi chicoteado e crucificado ?



O resultado disso tudo? Homens cada vez mais perdidos e carentes emocionalmente, afeminados, que passaram a ter uma vida voltada a agradar desesperadamente às mulheres a sua volta em busca de reconhecimento, aprovação e acolhimento, sem saber como e pior, se esquecendo do que é realmente ser homem. Passaram a não se importar em se destacar das maneiras mais fúteis possíveis. Dai surgiram homens andrógenos, alucinados por moda, por um corpo perfeito, mesmo que seja inútil, por um cabelo impecável, por um tênis ou por uma calça que modela seu corpo, por ser dono de um carro fodão, mesmo sem saber trocar o óleo. Resumindo, por uma imagem bem sucedida mesmo que sem conteúdo.

Deixamos de lado os nossos talentos, não queremos mais nos aperfeiçoar por nós mesmos, nós queremos impressionar, queremos ser os comedores e tratamos as mulheres como objetos, não as reconhecendo como “objetos” úteis e maravilhosos, mas como algo que serve para mostrar a nossa superioridade, quando na verdade estamos acuados e desesperados por atenção e aprovação, perdidos de nós mesmos. Abandonamos o respeito por nós, pelas mulheres, pela nossa casa, pela nossa família e pela natureza do nosso mundo. Abandonamos nossa virilidade, o que para os homens é tão importante quanto é a feminilidade para as mulheres.

Podem dizer o que quiserem sobre o feminismo. Sempre admirei a coragem e a força das mulheres do nosso século, principalmente quando passaram a lutar para ter mais expressividade na sociedade e ir além do papel de solitárias do lar. O que reivindico aqui não vai contra as mulheres, mas contra os homens que estamos nos tornando, contra os homens que criamos e que cada vez mais serão responsáveis pelo nosso mundo. O que queremos? Sacrificar nossas vidas em busca de um ideal de vida criado para ser consumido, seguido e nunca atingido ou dedicar nossas vidas a nós e às pessoas que amamos? Criar nossos filhos e filhas como homens de verdade ou sermos observadores passivos do caminho por onde o mundo vai? O que vamos fazer, seguir por essa enorme zona fictícia de conforto ou ter bolas para olhar do lado e tomar uma atitude digna? Pensemos para existir como pessoas e não idiotas bundões.

Que prazer não há ?


Que prazer não há em dividir, com bem-queridos, o privilégio de momentos em frente ao mar?

Qual alegria sabe fugir disso? Ela se sente incontrolavelmente cativada pelos risos, gracejos, jogos, sonecas, canções, filmes e aventuras. Como poderia ser diferente? É impossível para ela escapar disso tudo impassível. Ao primeiro riso é atraída e depois da primeira soneca senta-se entre todos e joga conosco os jogos de carta que são regados daquele e deste lado por copos brincalhões, os mesmos que mais no fim da noite se suicidam em mergulhos fatais, voando de cima de mesas, criados mudos, parapeitos e outros cantos.

Já cativada, a musa da alegria se acomoda e não há tempo feio que abale essa valente inspiradora da boa vida.

Euterpe, a musa grega da alegria, da música, do lirismo e do prazer
Euterpe, a musa grega da alegria, da música, do lirismo e do prazer



Toda conversa engrandece, cada pensamento aumenta, todo pão é dividido, cada doce também, cada dia é mais vivido, braçada a braçada, de frente ao mar.

O passeio mais gostoso é até a sala, numa transferência de ambiente, o que logicamente, pede outra música, outra comida - daquelas mais gostosas, que só se come antes e depois de comer - outra conversa e principalmente uma nova disposição, completamente adversa, de seus membros, até a musa, que antes só alegria, agora divide espaço com o amor, a esperança, o sonho, a paixão e logo mais chega a saudade, deusa brasileira que só tem nome em português, ela vem sorrateira, enquanto carregamos o carro e partimos.

No final, fomos nós o Sol.

Versos livres declarados



Porque vieste a mim. Se para derramar pranto ou rir riso, veio a mim. Se para esquecer do mundo enquanto estávamos, somente nós, entrelaçados como orquídea e árvore, veio a mim. Se para pedir ou esperar ser pedida, se para brigar ou pedir perdão, veio a mim. Se por tropeçar em uma pedra no meio do caminho ou por vontade própria, que se entrega após o amor bem feito, veio a mim, se para encontrar um porto seguro, ou para se lançar no mar da vida, veio a mim.

Veio com teus lindos olhos nos quais mergulhei sem pedir licença nem perdão, com lábios feito pêssegos frescos, rosados como romãs do fim do verão que pedem um lascivo beijo. Veio até mim com sua doce voz que desenhava palavras no ar, veio com o perfume que é só teu, perfume de pele, perfume de riso, perfume do toque, perfume de cada pelo eriçado que se dava por consequência de um olhar demorado no meio da multidão, um olhar de súplica que dizia: - Vamos só nós, agora, dê-me sua mão e corramos como selvagens amantes tomando pradarias na ofegante alegria virginal de corações excitados e apaixonados.

Por isso eu quisera dar-te, além de todos os lírios e de todos os beijos, o que amante nenhum deu a sua amada e que tampouco te posso ofertar. Quisera dar-te o momento em que nasci, marcado pela tua inevitável vinda, verias então na clareza de meu peito o contorno da sua forma, anterior a ti mesma.

Quisera dar-te também, as ruas em que brinquei menino, ruas tranquilas de mil destinos em que me perdia e me encontrava, de onde trazia a forma elementar de tudo o que jazia no espaço, pedras raras, cabos de espadas, ferros de cavalos, passos de heróis, fugas destemidas, seixos coloridos, o seio do infinito.

Mais ainda, quisera dar-te meus infinitos devaneios a toa, que se davam por certo, na busca de teus braços, enquanto sentia vontade de escalar por tudo e transpassar o proibido com elásticos saltos de bailarino e malabarismos circenses imperceptíveis aos corações gelados jacentes ao redor, para alcançar folhas, frutos, nuvens, estrelas e a ti, luminosa amada, que derrama sua claridade sobre mim.

Pudesse eu dar-te minha primeira derrota e minha primeira vitória. A primeira derrota a solidão e a primeira vitória por ter amor gravado em meu peito, pudesse eu dar o primeiro arrepio vindo do gelado toque da morte.

Daria todo o meu desapego para oferecer-te o instante em que, sozinho no mundo sibilava debilmente uma prece noturna quando iluminado por trêmula chama vi sua forma emergindo do recônditos do meu flanco e em esforço sobre-humano, arquejando em meio a imensa dor, gritei, cercado por temporais desencadeados pelo céu em transformação e te pari, roto e maltrapilho, imundo junto ao pó da terra.

Quisera dar-te, Namorada, o instante anterior a tua vinda, quando esperando-te chegar, relembrei de sua feição adolescente, pura e alva, caminhando pela mesma pequena cidade em que te reencontrava anos depois. Junto da certeza que tive, ao te olhar, de que a partir de nosso arrebatador e insigne encontro, era eu, vitória e ruína, no mesmo ato.

Acima de tudo Amada minha, quisera eu poder dar-te o instante de minha morte e que ele fosse também o instante de tua morte, para que assim nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos além das agruras humanas nosso inefável descanso eterno, juntos, acima da terra e que todos que amamos nos visitassem e que todos aqueles que ainda vão se amar pudessem mirar-nos em nosso berço final.