quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O jogo

Ele vê decisões como peças complexas de um jogo de montar que não tem fim. Nesse jogo, sua vida leva e é levada e todos os jogadores vão e vem, para baixo e para cima, atrás, em suas memórias, à frente, em seus sonhos. Sem nenhum controle.

Algumas vezes os doces momentos se tornam memórias amargas dentro dele, as vezes lágrimas lavam as dores e as empurram e as espremem e as rasgam e as dilaceram e as queimam e as cortam dentro dele, que grita calado.

A sua falta faz e o fará cair, no infinito duas vezes vazio e sem fim de sí.

O nó cego amarrado em sua garganta o fez engasgar e o fará soluçar e sufocar e suas pernas outrora fortes, serão fantasmas anônimas. Serão perseguidoras de sonhos mortos, serão caminhantes do nada, que continuam pela inércia de existir, que existem por continuar, movimento é vida e para ele o sentido disso tudo é a razão de todas as perguntas, mas e a resposta? Está no sentido? Está em si mesmo?

As lembranças são momentos de um doce passado que amargou e virou veneno. Traiçoeira, a memória as empurra peito adentro. Sutis, os sonhos espelham o pensamento e espalham o veneno, de cima à baixo, de trás à frente, sem controle.

Mesmo assim ele tem sonhos que o fazem lembrar e sorrir, mesmo que isso envenene sua alma, mesmo que cause dor e traga o desespero, ele sonha e com a dor sorri, porque se nega a continuar apenas por ser e se nega a ser apenas por continuar, ele bebe, aos poucos e em pequenos e amargos goles, o veneno que o mata e o faz sentir vivo.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Não importa

Não importa
Teu berço não é dourado e meritocracia é papo furado.
Se é difícil a jornada e o trampo pra você é dobrado
O calo aperta, a casa é longe e a noite o rango é ralo
Se todo final de dia, antes do fim você ja ta acabado

Não importa
Se tua mãe nasceu num cortiço
Teu pai sumiu no mundo e voce sabe disso
Se teu caminho não ta fácil e não é bonito
Se vende almoço pra jantar e nunca sai disso

Não importa
Se é foda e todo dia coletivo ombro a ombro
E o medo de não conseguir te causa assombro
Se teve que dormir em baixo de escombro
E tua origem quase sempre causa incômodo

Não importa
Se os homi te para e apara, repara parece uns clone!
E os boy pinta uma vida colorida só com a cor do sobrenome
Se em casa sempre falta um conserto e sobra fome
E um otário que te diz, sem grana ninguém é homem

Não importa.
Se você quer, segue mesmo de mão e mente vazia
Mostra pro mundo sua força e faz disso tua alegria
Leva a mão ao ferro e fogo, pra se queimar e se ergue, sorria

Se for difícil, cai, levanta, e tipo gripe ruim, pega o mundo e contagia

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Perda, infância, sentido e recomeço

De todas as penitências que podem existir nada é mais cruel para o homem do que perder um sentido. Nunca ter sido contemplado por ele é suficientemente pesaroso, mas perdê-lo é arrasador.

Perder um sentido é tão cruel quanto ter sido criança. A todo tempo, pelo resto de nossa existência, nos lembraremos dos doces anos que a vida já não traz mais. Anos de leveza, inocência, sinceridade, confiança e amor infinitos, tão intensos e reais que não cabem em um mundo crescido.

E como um cego que nasceu são, nos tornamos adultos que nasceram crianças, atores que se perderam encenando um personagem na imensidão cruel de um palco onde só os mais fortes sobrevivem.

Se a visão um dia nos faltar, os outros sentidos, combinam entre sí e, cada um no que lhe cabe, dedicam-se mais para que o palco não escureça totalmente. Se a infância se vai a implacáveis golpes de maturidade em direção a uma vida adulta, o amor aparece para nos lembrar de quem somos e planta inocência, carinho, leveza e confiança. Mas os brotos só nascem em solo fértil e bem cuidado, em terra fofa e bem nutrida, onde há, principalmente, vida.

O tempo nunca volta, mas o começo é feito tantas vezes quantas conseguirmos nos levantar. Sempre haverá um sinal para aquele que está atento. Sempre haverá um amor para aquele que se permite, sempre haverá para mim você.

segunda-feira, 18 de março de 2013

No frio, nós

Nesse frio, tudo o que eu quero é você e nós, deitados como deve ser, abraçados até adormecer.

Respiro seus cabelos emaranhados, enquanto nossos gelados pés permanecem entrelaçados.

Seu corpo e o meu no mesmo espaço, até o último espasmo. Nós, mais do que você e eu, além do que qualquer um já concebeu.

Em um mundo paralelo, outro universo. Além de Pasárgada, porque nenhuma mulher escolherei, nem quero ser amigo de rei, tudo o que quero é voltar pra nega de quem sempre cuidarei.

domingo, 17 de março de 2013

Em todo meu melhor, ela

Mesmo que te dissesse o quanto quisesse todo o carinho que teces em meu peito, ainda sim seria suspeito de faltar ou acrescentar jeito.

Vi em você razão pra toda paixão e mesmo que um só erro te desencantasse, não iria pra longe de minha beldade. Não desistiria, por erro ou acerto, de te mostrar o bem que te desejo.

 Se dizer o quanto de mim hoje vive em você te fizesse entender o pesar que há em decepcionar, mesmo sem intenção, quem reinventou em mim o que é amar. Te diria todo dia que o meu acariciar, meu olhar, meu conversar, meu gozar, meu brincar, meu entrosar, enroscar, sonhar, cantar, apaixonar e qualquer outro bom verbo terminado em ar, vive em você que me faz suspirar.