segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Versos livres declarados



Porque vieste a mim. Se para derramar pranto ou rir riso, veio a mim. Se para esquecer do mundo enquanto estávamos, somente nós, entrelaçados como orquídea e árvore, veio a mim. Se para pedir ou esperar ser pedida, se para brigar ou pedir perdão, veio a mim. Se por tropeçar em uma pedra no meio do caminho ou por vontade própria, que se entrega após o amor bem feito, veio a mim, se para encontrar um porto seguro, ou para se lançar no mar da vida, veio a mim.

Veio com teus lindos olhos nos quais mergulhei sem pedir licença nem perdão, com lábios feito pêssegos frescos, rosados como romãs do fim do verão que pedem um lascivo beijo. Veio até mim com sua doce voz que desenhava palavras no ar, veio com o perfume que é só teu, perfume de pele, perfume de riso, perfume do toque, perfume de cada pelo eriçado que se dava por consequência de um olhar demorado no meio da multidão, um olhar de súplica que dizia: - Vamos só nós, agora, dê-me sua mão e corramos como selvagens amantes tomando pradarias na ofegante alegria virginal de corações excitados e apaixonados.

Por isso eu quisera dar-te, além de todos os lírios e de todos os beijos, o que amante nenhum deu a sua amada e que tampouco te posso ofertar. Quisera dar-te o momento em que nasci, marcado pela tua inevitável vinda, verias então na clareza de meu peito o contorno da sua forma, anterior a ti mesma.

Quisera dar-te também, as ruas em que brinquei menino, ruas tranquilas de mil destinos em que me perdia e me encontrava, de onde trazia a forma elementar de tudo o que jazia no espaço, pedras raras, cabos de espadas, ferros de cavalos, passos de heróis, fugas destemidas, seixos coloridos, o seio do infinito.

Mais ainda, quisera dar-te meus infinitos devaneios a toa, que se davam por certo, na busca de teus braços, enquanto sentia vontade de escalar por tudo e transpassar o proibido com elásticos saltos de bailarino e malabarismos circenses imperceptíveis aos corações gelados jacentes ao redor, para alcançar folhas, frutos, nuvens, estrelas e a ti, luminosa amada, que derrama sua claridade sobre mim.

Pudesse eu dar-te minha primeira derrota e minha primeira vitória. A primeira derrota a solidão e a primeira vitória por ter amor gravado em meu peito, pudesse eu dar o primeiro arrepio vindo do gelado toque da morte.

Daria todo o meu desapego para oferecer-te o instante em que, sozinho no mundo sibilava debilmente uma prece noturna quando iluminado por trêmula chama vi sua forma emergindo do recônditos do meu flanco e em esforço sobre-humano, arquejando em meio a imensa dor, gritei, cercado por temporais desencadeados pelo céu em transformação e te pari, roto e maltrapilho, imundo junto ao pó da terra.

Quisera dar-te, Namorada, o instante anterior a tua vinda, quando esperando-te chegar, relembrei de sua feição adolescente, pura e alva, caminhando pela mesma pequena cidade em que te reencontrava anos depois. Junto da certeza que tive, ao te olhar, de que a partir de nosso arrebatador e insigne encontro, era eu, vitória e ruína, no mesmo ato.

Acima de tudo Amada minha, quisera eu poder dar-te o instante de minha morte e que ele fosse também o instante de tua morte, para que assim nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos além das agruras humanas nosso inefável descanso eterno, juntos, acima da terra e que todos que amamos nos visitassem e que todos aqueles que ainda vão se amar pudessem mirar-nos em nosso berço final.

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